DA IMPORTÂNCIA DA VENEZUELA

Stefan Salej

Definitivamente, o Brasil no momento só tem um problema grave na sua política externa: a Venezuela. Por isso é de suma importância a viagem do novo Chanceler Embaixador Ernesto Araújo, um dia depois de tomar posse e encontrar o Secretário de Estado dos Estados Unidos, para o encontro do Grupo de Lima, 14 países do continente que procuram uma solução para a situação venezuelana. E essa situação tem data certa para ser ou não resolvida: quando começar o novo mandato do atual Presidente Maduro.


 

A situação venezuelana tem o nome do seu padrinho e sustentáculo cravado em letras douradas: a política externa do governo do PT. Chávez, o presidente que introduziu o bolivarismo, um socialismo que ele intitulava Socialismo do Século 21, apareceu já no governo FHC. Enquanto os europeus estranhavam as atitudes do exótico coronel, FHC tolerava e dizia que podia controlar eventuais excessos. Em 2002, com a entrada de Lula no governo brasileiro, iniciou-se um golpe de estado que praticamente derrubou Chávez e seu socialismo. Mas, sob coordenação do então Chanceler brasileiro Celso Amorim e sob os auspícios do Assessor Internacional do Presidente Lula, Marco Aurélio Garcia, fizeram um grupo de amigos da Venezuela que abafou o golpe e manteve Chávez no poder. Sem essa intervenção brasileira, não teríamos nem Chávez, nem Maduro e nem caos e crise humanitária na Venezuela.


 

Com a bonança dos preços de petróleo, o governo Chávez teve dinheiro para gastar à vontade e atendeu bem todos os interesses. Deu aos militares a área do narcotráfico, bem descritos em todas as séries sobre narcos no Netflix, compras de equipamentos militares do mundo inteiro e mais o controle da base da economia venezuelana: petróleo e sua empresa PDVSA. Assim, criou-se um modelo político-militar que empurrou o país para a ditadura e o caos social, usando instrumentos aparentes de democracia, como eleições manipuladas e opositores presos, para se manter no poder.


 

O Brasil, com suas empreiteiras corruptas, aliou-se a esse modelo e deu apoio político à sua expansão, através da Aliança Bolivariana na América Latina. Sobrepôs-se aos Estados Unidos e à Europa leniente e garantiu Chávez e depois Maduro no poder. Assim, a Venezuela hoje deve ao Brasil incobráveis 55 bilhões de dólares.


 

A população brasileira só se deu conta do problema com a chegada de refugiados venezuelanos a Roraima. Mas, este é o menor dos problemas. Pior é a aliança da Venezuela com a Rússia e a China, que confronta diretamente a esfera de influência norte-americana no continente.


 

E, sem dúvida, a Declaração de Lima, que condena o regime de Maduro e prevê sanções, menciona pela primeira vez com clareza as pretensões venezuelanas sobre o território da Guiana. E nada melhor para um regime podre e falido do que reunir seu povo ao provocar um conflito armado. Maduro e seus militares precisam de algo mais para se manter no poder e um conflito com a Guiana, rica em recursos naturais, pode oferecer essa oportunidade.


 

O problema é que isso acontece na nossa fronteira. E o conflito militar não seria um conflito regional, mas, de um lado Venezuela, China e Rússia, e de outro lado Brasil e Estados Unidos. Uma loucura que está sendo evitada pela diplomacia brasileira, mas que está longe de ser irreal. Uma herança da política externa dos governos petistas das mais malditas.


 

STEFAN SALEJ, consultor empresarial, foi presidente do Sistema Fiemg e Sebrae MG

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