Do saco de gatos ou sistema tributário

Stefan Salej

Depois das chuvas que caíram em Belo Horizonte e Sul de Minas, um verdadeiro dilúvio, falar em água e da sua falta, como também da sua importância, parece paradoxal. Mas, as águas de março (lindíssima canção de Tom Jobim e Elis Regina), que destroem as cidades todo ano, não são as águas sobre as quais estão nesta semana em Brasília discutindo os líderes mundiais. Por sinal, enquanto não veio nenhum dignitário para o Fórum Econômico Mundial para a América Latina em São Paulo, na semana passada, há muitos deles no Fórum Mundial da Água em Brasília. Paradoxal.

A importância da água no mundo, onde de fato um dos graves problemas é a sua falta, (a linda Cidade do Cabo na África do Sul está nestes meses sofrendo de uma falta de água terrível), não precisa ser muito discutida porque ela existe e é um problema mundial. Provoca guerras, em especial na região do Oriente Médio e África, mas também é problema, entre outros, na Índia e na China. Quem tem água, tem um elemento fundamental para seu desenvolvimento agrícola e melhoria das condições de saúde. No Brasil, que se ilude que com a extensa região amazônica e com o Rio Amazonas, há água em abundância, mas mais de 100 milhões de pessoas não tem acesso água potável.

Minas, que já foi chamada a caixa d’água do Brasil, usando água para gerar energia elétrica, tem extensas regiões no Norte do Estado que, como no Nordeste brasileiro, sofrem de falta de água, não só para a agricultura, mas também de água potável. Água para beber. Sem falar de como cuidam das nossas águas as mineradoras, como é o caso da Anglo American agora e da Samarco no passado recente. Nos dois casos, a irresponsabilidade empresarial se sobrepõe ao interesse geral.

O Governo Federal tem vários organismos que cuidam desse problema e no Brasil temos até a ANA- Agencia Nacional da Água, que regulamenta o uso de água para fins industriais e agrícolas. E nas bacias hidrográficas há comitês gestores, que funcionam como funcionam as coisas na sua maioria no Brasil: uns melhor, mas na maioria pior.

Em Minas houve ainda a tentativa de fazer no Triângulo, no Governo Aécio Neves, um centro mundial de água, que foi um dos maiores escândalos vistos nas alterosas. Seus autores foram presos e centenas de milhões gastos em prédios e equipamentos hoje estão abandonados. O problema de abastecimento de água potável continua, é da responsabilidade dos municípios, entre os quais vários possuem eficientes entidades autônomas para resolver o problema. E a maioria cedeu o direito à concessão à estatal COPASA. A água, cujo fornecimento tem alto custo operacional, virou um negócio onde multinacionais atuam sem pudor.

Entre tantas prioridades, temos que enfrentar também essa, porque ela significa saúde, melhoria de qualidade de vida, e melhor alimentação. A crise hídrica de quatro anos atrás em São Paulo já está esquecida, e, nos programas dos governos, fala-se mais em privatizar o abastecimento de água do que em solucionar o problema. Quem tem água , tem qualidade de vida, e quem não tem, não tem vida. Simples assim.

STEFAN SALEJ, consultor empresarial, foi presidente do Sistema Fiemg e Sebrae MG.

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